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De sede administrativa a referência em indústria e mercado imobiliário: as transformações econômicas de Goiânia ao longo dos seus 93 anos

Veja as transformações econômicas de Goiânia ao longo dos seus 93 anos De uma cidade planejada para menos de 50 mil habitantes e focada em ser a nova sede p...

De sede administrativa a referência em indústria e mercado imobiliário: as transformações econômicas de Goiânia ao longo dos seus 93 anos
De sede administrativa a referência em indústria e mercado imobiliário: as transformações econômicas de Goiânia ao longo dos seus 93 anos (Foto: Reprodução)

Veja as transformações econômicas de Goiânia ao longo dos seus 93 anos De uma cidade planejada para menos de 50 mil habitantes e focada em ser a nova sede político-administrativa de Goiás até uma capital com economia pujante e diversificada, com uma população estimada pelo IBGE em 1,5 milhão de pessoas. A trajetória de Goiânia ao longo de seus 93 anos de existência envolveu transformações socioeconômicas significativas até se tornar referência na indústria e no mercado imobiliário, entre outras área. Para entendê-las, o g1 ouviu especialistas e também moradores, que avaliam os caminhos percorridos até aqui. Adriana Sousa, presidente do Conselho Regional de Economia de Goiás (Corecon-GO), faz um resumo do que aconteceu durante as nove décadas de existência da capital, que faz aniversário neste sábado (24). Ela explica que, no início, a construção da cidade, a instalação da administração pública e o comércio foram os principais motores econômicos de Goiânia. “Depois, a construção de Brasília, a expansão das rodovias que cortam o Centro-Oeste e a diversificação e expansão da agropecuária acabaram atraindo para Goiânia muitas outras empresas e investimentos para atender a essa região”, explicou a economista. ✅ Clique e siga o canal do g1 GO no WhatsApp Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram as múltiplas vocações econômicas que a cidade adquiriu e desmistificam a ideia de que o seu Produto Interno Bruto (PIB), a soma de todos os bens e serviços finais da capital, se limita ao agronegócio. Viaduto na cidade de Goiânia, em Goiás Guilherme Alves/O Popular De acordo com a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do segundo trimestre de 2026, a população ocupada da capital está distribuída pelos seguintes grupos profissionais: Trabalhadores de serviços, vendedores de comércio e mercado: 24% De ciências e intelectuais (ex: professores): 18,3% Técnicos e profissionais do ensino médio: 12% Trabalhadores qualificados, operários e artesãos da construção, das artes mecânicas: 11,7% Ocupações elementares (ex: domésticos, coletores de lixo etc): 9,8% Estação Ferroviária de Goiânia, na Praça do Trabalhador, em 1950 Cedoc/Rede Anhanguera Compondo o maior grupo de trabalhadores, o comércio de Goiânia, citado por Adriana, passou por profundas mudanças ao longo dos anos, inclusive em relação à sua principal localização, como explica João Oliveira Ramos Neto, professor de história do Instituto Federal de Goiás (IFG). “Quando eu era criança, nos anos 90, o centro de Goiânia era um lugar muito vivo. Cheio de pessoas circulando. O cartão postal da cidade não era o Parque Vaca Brava nem o parque Flamboyant, porque eles nem existiam. Era o Bosque dos Buritis. E as pessoas iam ao centro em busca de serviços, comércio e lazer”, relembra. Anúncios do jornal O Popular de décadas anteriores exemplificam como o comércio na região do Setor Central se desenvolveu e se consolidou (veja abaixo). Em 21 de março de 1953, uma livraria localizada na Avenida Goiás, próximo à Praça Pedro Ludovico, anunciava: “Máquinas de escrever: temos para pronta entrega ótimas máquinas”. Dois anos antes, na mesma avenida, o Senac divulgava, também no jornal, a abertura de matrículas para o curso de datilografia. Goiânia na década de 1950: recortes do jornal "O Popular" retratam a economia da época com atividades concentradas nos setores Central e Campinas Cedoc/Rede Anhanguera Helia Gonçalves, superintendente executiva da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Goiânia , conta que, além da região central, o Setor Campinas era uma importante referência comercial. "Com o desenvolvimento urbano, novos polos surgiram, como a Região da 44, especializada em moda e confecção, além de centros comerciais que se expandiram para os bairros", avaliou Helia. O comerciante José Ronaldo Alves Leite, de 59 anos, é testemunha dessas transformações. Em 1988, ele abriu a sua loja de telas de arame para alambrados no Setor Aeroviário, em uma área limítrofe à do Setor Campinas. José Ronaldo conta que herdou do pai o ofício manual de fabricar telas. A sua clientela é formada principalmente por quem precisa instalar telas ao redor de áreas abertas, como campos de futebol, além de chácaras e fazendas. Quando abriu a loja, era outra época, bem diferente dos dias atuais. "Tive bastantes dificuldades para registro, compra de material... Mas, com muita vontade, superei os desafios daquela época", relembra. O comerciante avalia que, de lá pra cá, a economia, não só da capital goiana mas do país como um todo, passou por profundas mudanças. Ele destaca, por exemplo, a altíssima inflação que o Brasil vivia no final dos anos 80, exatamente quando ele estava iniciando o negócio. A superinflação só foi superada com o Plano Real, na década seguinte. "Tinha elevação de preços quase mensal. Era muito difícil", contou. Em relação ao dia a dia do comércio, José Ronaldo lembra como era ir atrás dos clientes nos anos iniciais da loja. "Em 1988, as vendas eram feitas através de listas impressas, por telefone fixo, por jornais impressos. Hoje, melhorou bastante com a internet, o WhatsApp e os anúncios pelas redes sociais", disse. Apesar da expansão do comércio para outras áreas de Goiânia loja de José Ronaldo está no mesmo local até hoje, na Avenida Padre Wendel. Outros comerciantes, porém, se mudaram ou se instalaram em outros bairros nos últimos anos. Segundo Helia Gonçalves, da CDL Goiânia, a descentralização do comércio foi impulsionada principalmente pelos seguintes fatores: crescimento populacional; expansão imobiliária; mobilidade urbana; busca dos consumidores por mais praticidade, proximidade e conveniência. Um dos marcos dessa descentralização foi a construção e inauguração, no Jardim Goiás, do Shopping Flamboyant, em 1980 e 1981, respectivamente. Anos depois, outros grandes centros comerciais continuaram surgindo na cidade, como o Goiânia Shopping, inaugurado no Setor Bueno em 1995. "Os shopping centers e os centros comerciais de bairro ganharam espaço, aproximando o comércio do local de moradia e trabalho das pessoas", avalia Helia. Construção do Shopping Flamboyant, em 1981: empreendimento no Jardim Goiás foi um dos marcos da descentralização do comércio na capital Arquivo/ Flamboyant Shopping LEIA TAMBÉM: Cidade Arborizada do Mundo: saiba por que Goiânia recebeu título da ONU ITA 2027: Goiânia fica entre as 10 cidades com mais aprovados na 1ª fase de vestibular considerado um dos mais difíceis do Brasil O comércio de alimentos Responsáveis por boa parte da geração de empregos e da movimentação do comércio, os supermercados também são exemplo de expressivas mudanças no cotidiano dos goianienses. Segundo Augusto Almeida, superintendente da Associação Goiana de Supermercados (Agos), nas primeiras décadas da capital o abastecimento era dominado por mercearias, armazéns, feiras e venda assistida. Ou seja, o cliente pedia os itens, o atendente separava e entregava. De acordo com a Agos, só na década de 1950 os supermercados se consolidaram no modelo vigente até hoje, com prateleiras abertas, carrinho e escolha direta pelo consumidor. Já nos anos 1970 surgiram em Goiânia grandes redes, como Marcos, Moreira, Passe Bem, Alô Brasil, Pirineus e outras. Com o passar das décadas, essas redes citadas foram desaparecendo, cedendo lugar a outras. De acordo com Sirlei Antônio do Couto, presidente da Agos, isso ocorreu pelo próprio dinamismo característico do setor. “Ao longo dos anos, Goiânia viu nascerem empresas familiares, que se transformaram em grandes redes, assim como acompanhou mudanças de bandeiras, reorganizações empresariais e o surgimento de novos grupos”, disse Sirlei. Ainda nos anos 1970, o Brasil viu a chegada das chamadas redes atacadistas, com a proposta de preços mais baixos para compras de maiores quantidades de produtos. Em Goiânia, porém, assim como no restante do estado, esse novo modelo de supermercado só se consolidou mais recentemente, em uma combinação com o já tradicional modelo varejista – daí o nome "atacarejo". “Em Goiás, o avanço do atacarejo ganhou força especialmente nas últimas décadas, acompanhando a expansão urbana, a profissionalização da distribuição de alimentos e o crescimento de redes regionais e nacionais”, explicou Augusto. Supermercado Marcos: rede foi uma das primeiras de Goiânia e chegou ao fim em 2010 Sebastião Nogueira/O Popular A força da indústria A indústria goianiense surgiu e se diversificou em vários setores da economia, desde os gêneros alimentícios, passando por máquinas e equipamentos até o vestuário. Ao g1, André Rocha, presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), destaca a forte produção de alimentos na capital. “Nós temos o setor lácteo, frigoríficos... temos que lembrar que, durante muitos anos, o principal frigorífico do grupo JBS, hoje o maior grupo de proteína animal do mundo, está instalado em Goiânia, na região Noroeste”, afirmou. Região da 44 em Goiânia, Goiás Wildes Barbosa/O Popular Rocha chama a atenção, ainda, para a presença das confecções de roupas, que dialogam com o comércio da pujante e nacionalmente conhecida Região da 44, que, segundo a Assessoria Empresarial da Região da Rua 44 (AER44), é o segundo maior polo de confecção e distribuição de moda do Brasil, com mais de 13 mil pontos de vendas. “A indústria da moda – calçados, confecções e cosméticos – é uma indústria muito forte e que vem crescendo muito”, disse o presidente da Fieg. Outra demonstração da força da indústria goianiense é exercida pelo setor da construção civil. As imagens de ruas exclusivamente repletas de casas e de estabelecimentos comerciais térreos registradas na capital nas suas primeiras décadas deram lugar a construções imponentes, muitas delas com mais de 20 pavimentos. Trabalhadores em obra em Goiânia, Goiás Wildes Barbosa/O Popular Edson Roberto Vieira, superintendente do IBGE em Goiás, explica que o crescimento da construção civil está relacionado à aceleração do mercado imobiliário em Goiás, explicada por múltiplos fatores, entre eles o fluxo financeiro gerado pelo agronegócio. “Muitas pessoas que têm propriedades no interior do estado, ou até mesmo em outros estados, acabam investindo no setor imobiliário de Goiânia. A gente tem visto aqui na capital, nos últimos tempos, muitos lançamentos de imóveis de luxo. Então, uma boa parte dessa demanda tem como origem a renda gerada no setor agropecuário”, explica Vieira. O pujante mercado imobiliário A avaliação do superintendente do IBGE vai ao encontro da do presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás (Ademi-GO), Felipe Melazzo, que afirma que boa parte dos investimentos no setor estão relacionados às atividades no campo. “O diálogo do mercado imobiliário de incorporação com o agronegócio é umbilical e ajuda o círculo virtuoso do crescimento econômico sustentável do PIB do nosso Estado”, disse Melazzo. Prédios em construção em Goiânia, Goiás Wildes Barbosa/O Popular Segundo a Ademi, hoje o mercado imobiliário goiano é o terceiro maior do Brasil, com grande destaque para a capital. “O segmento representa, sozinho, mais de 10% da arrecadação anual do município de Goiânia. Sozinha, a indústria da construção representa 20% da força laboral industrial”, disse. Para atingir esse patamar, a cidade passou por profundas transformações, que permitiram que os problemas que havia no início, na sua fundação, fossem corrigidos ao longo dos anos. “O mercado imobiliário na década de 1930 passava por profundas transformações, com pouco crédito, a presença Estatal muito forte e o combate de ocupações irregulares. Em Goiânia, em que pese que a cidade tenha sido concebida por um traçado urbanístico moderno e inovador e com a presença arquitetônica revolucionária para a época, a ocupação ocorreu marginalmente ao traçado original, motivada pela falta de infraestrutura”, detalha Melazzo. Ao longo dos seus mais de 90 anos, as principais transformações do mercado imobiliário goianiense foram: Anos 1930 e 1940: as áreas mais valorizadas de Goiânia eram a Central e a Sul; Anos 1950 e 1960: início da verticalização dos Setores Oeste e Bueno, em paralelo com o êxodo do Setor Central; Anos 1980 e 1990: com a criação dos parques Vaca Brava e Areião, ocorre a consolidações dos Setores Bueno e Marista; Anos 2000 e 2010: com a consolidação do Shopping e Parque Flamboyant, o Jardim Goiás passou a ser um bairro nobre, posição mantida atualmente; Anos 2020: bairros como Serrinha, Jardim América, Setor Pedro Ludovico se firmam como novos vetores de crescimento e de oportunidades de investimento. Referência em saúde e educação Integrando o rol de vocações econômicas da capital também estão as áreas da saúde e educação de alto nível na região do Brasil Central, como explica Edson Roberto Vieira, do IBGE. “O setor de serviços é o mais forte [da capital]. E aí eu chamo a atenção para a questão de serviços de saúde, saúde de alta complexidade, atendendo outros municípios aqui do estado de Goiás, mas atendendo também outros estados. Muitas pessoas vêm pra cá para ter acesso a esses serviços”, disse. Na educação, Vieira destaca a fundação da Universidade Federal de Goiás (UFG), em 1960. “É um marco importante, não apenas pela oferta de vagas de ensino superior, mas também pelo aumento da oferta de pessoas com diferentes formações no mercado de trabalho”, disse. De lá pra cá, outras instituições de renome se instalaram na capital, tanto públicas quanto privadas. O avanço da escolaridade na população também contribui para o crescimento econômico dos moradores, tanto dos que nasceram na cidade quanto dos que migraram para estudar e acabaram se estabelecendo profissionalmente. O futuro da capital O avanço da economia goianiense é uma realidade ao longo das décadas e pode ser sentida pelos próprios trabalhadores. Segundo a Pnad Contínua, do IBGE, o rendimento médio mensal de quem reside em Goiânia, no segundo trimestre de 2026, foi de R$ 5.496, o sexto maior do país entre as capitais e superior ao de metrópoles bem maiores, como São Paulo e Rio de Janeiro. Esse rendimento mensal medido pelo IBGE considera a soma de todas as fontes de renda, não apenas do salário. No segundo trimestre de 2012, o valor era de R$ 4.053. Em quatorze anos, portanto, os ganhos dos trabalhadores avançaram 35,6%. E o que o futuro reserva à economia goianiense? Todos os especialistas ouvidos pelo g1 são unânimes em apontar a modernização das atividades profissionais por meio da inteligência artificial (IA), acompanhando uma tendência mundial. “Nós temos uma promissora indústria da área de tecnologia. Precisamos destacar que o Centro de Excelência em Inteligência Artificial (Ceia), da Universidade Federal de Goiás (UFG), está entre as três maiores instituições de ensino no que diz respeito à inteligência artificial”, avalia André Rocha, presidente da Fieg. Para a economista Adriana Sousa, a IA deve contribuir para diversos setores, como educação, saúde, comércio e serviços especializados, passando pela economia criativa, a área de eventos e de serviços ligados às cadeias produtivas de Goiás. “A inteligência artificial pode ajudar empresas a administrar estoques, melhorar atendimentos, reduzir desperdícios e na tomada de decisões. Goiânia já tem uma base importante de pesquisa e formação nessa área”, disse Adriana, também citando o curso da UFG. A tendência é que os goianienses lidem cada vez mais, no dia a dia, com recursos dotados de inteligência artificial, como, por exemplo, nos supermercados. “O consumidor estava acostumado a pedir os produtos ao comerciante, que os retirava das prateleiras. Hoje, falamos em inteligência artificial, automação e caixas de autoatendimento”, avalia Sirlei Antônio, presidente da Agos. Nesse cenário, a diversificação da economia da capital deve ser ainda mais intensificada, demandando maior capacitação, como explica a Adriana. "O objetivo, então, precisa ser aumentar a produtividade, gerar empregos de melhor qualidade, fazendo com que a inovação beneficie também os pequenos negócios e amplie as oportunidades para toda a população", concluiu a economista. 📱 Veja outras notícias da região no g1 Goiás. VÍDEOS: últimas notícias de Goiás